Siga o incômodo! O que há por trás do desconforto?
- Aroma das Fadas

- 2 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
{O medo da fúria do mar e a profundidade de si}

Quais sensações lhe atravessam, enquanto contempla a pintura ao lado? Permita-se olhar por alguns instantes, aderindo todo o ambiente em seu imaginário. Sinta as rochas gélidas abaixo de seus pés, atente-se ao ruído do vento e ao barulho incessante das ondas. As sensações comumente incluem medo, anseio, estranhamento, sufoco... E não a toa!
A metáfora pintada propositalmente desconforta, refrescando a mente coletiva a respeito de situações onde nos sentimos como em meio ao mar noturno, imprevisível e furioso. Momentos onde as decisões se fazem ainda mais difíceis, e o descanso não é uma possibilidade. Talvez lhe passe pela cabeça a sensação de abandono, a evidente falta de proteção, a saudade do aconchego de uma coberta, buscando transferir-se para um lugar de segurança. O estranhamento se dá pelo breve lembrete de que o viver inclui muitos momentos de frio e pura insegurança.
A forma que toda essa comunicação não verbal nos afeta torna evidente o pânico que temos de sentirmos afogando no mar dos sentimentos em meio à incerteza. Há o pânico claustrofóbico de não ter a quem se agarrar. Há o medo diante da figura, imensa e desconhecida, personificada pelo farol, o qual bem poderia representar a sabedoria emocional e a força psíquica a serem lapidadas. Quando a mente abandona o estado de tensão, se pode verdadeiramente perceber a si e aos contextos da vida, e é nesse espaço que se encontra o fio de integração de tudo aquilo que vem sendo absorvido até então. Aprendizado emocional se consolida quando colocado em prática, ainda que os cenários nem sempre favoreçam. Os olhos se acostumam a medida que encaramos a escuridão de peito aberto. Os processos vêm e vão, mas e a marinheira? Teima em não se deixar destruir, mas sim maturar pelas ondas do tempo.
Com isso não digo que seja preciso buscar pelo frio, pelo desamparo. Precisamos, porém, desenvolver a sobrevivência e a adaptação saudável a tais estados, pois constantemente se fazem, e infindamente se repetem. Figuras como tal, ainda que de modo incompreendido, nos fazem lembrar do frio de afeto, o frio de colo verdadeiro, por vezes esquecendo que carregamos conosco potenciais fontes de uma nutrição pura e verdadeiramente encorajadora. Sim, os desconfortos trazem-nos uma sobriedade por vezes ensurdecedora, um desarranjo na espinha. Diante disso? A necessidade de criar em si um lar. O calor e a ocitocina que faltaram na primeira infância, o colo suficiente e a segurança, hei de compensar, criando casulos para viver as transformações, cavernas acolhedoras para descansar, fazendo-me doces de mamão e abóbora e, sobretudo, me fazendo enfrentar a densa floresta quando há de ser. Fazendo sobreviver ao mar, ainda que afundar pareça involuntário.
Há vida após o caos. Existem incontáveis manhãs após a tempestade. Firme e reforce a confiança, as bases de afeto, pois o tempo está sempre a transitar. A tempestade sempre irá voltar. Quando sob o olho do furacão, nos sentimos apertadas, espremidas pela vida, sem saber que tipo de conteúdo será extraído. É uma contração existencial, não se esqueça de respirar! Sempre há o que se extrair de si. Confie quando a panela da vida pega pressão, segure firme enquanto chove no frio. Ao fim dos processos densos, poderá respirar aliviada. Terá passado por mais uma labuta sendo verdadeiramente responsável por si. Não se preocupe em construir a saúde emocional e psíquica perfeita. Preocupe-se apenas em fazer por si a cada ciclo, reconhecendo com respeito os limites de dentro. Escute-os, pois a ausência deles será também a ausência do entendimento de quem você é, do que deseja e do que não aceita mais. Apenas respire, consciente de que, em alguns dias, sobreviver terá sido o seu melhor.
Lídia - 02/03/22
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